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Se os Tubarões Fossem Homens… 

Que tempos são estes em que é quase um delito falar de coisas inocentes. Bertolt Brecht

Lembrei-me destes poemas de B. Brecht ao perder meia hora deste fim de semana assistindo a um vídeo anacolútico, difícil de ser abordado por meio da racionalidade… Mas me esforçarei para alinhavar o raciocínio do infeliz autor, pautando-o em termos de lógica formal. A arte aprendeu humildemente através dos séculos que se enriquece e se nutre do conhecimento acumulado de outras áreas, mas a discussão que vi é apenas entre designers. Como não sou Do meio, assumo minha irresponsabilidade, e apresento alguns questionamentos vistos “de fora” desta janela onde boas e más perspectivas se mostram – quem sabe sirva de alguma coisa (senão para vingar os 30 minutos que perdi). A fim de gerar algum interesse, formato-o como uma entrevista, onde questiono uma sombra:

(Contextualizando: um designer publicou uma tabela estimando valores a ser cobrados por serviços de Design baseada em enquetes com profissionais da área no RS. Isso gerou uma onda, sob a qual os tubarões do RJ mostraram seus dentinhos miúdos e ferinos….)

Aqui o vídeo (feito por um “designer experiente” com 30 anos de mercado prosaico e corporativista): http://www.youtube.com/watch?v=0X71kmEVJHA 

Aqui um podcast em resposta, feito por “iniciantes” no mercado de design: http://www.brainstorm9.com.br/36312/anticast/anticast-urgente-02-a-polemica-da-tal-tabela-de-precos/

GD: “O senhor começa o vídeo dizendo que ‘conteúdo é mais importante do que forma’… Por que então seu discurso não tem conteúdo e seu vídeo é tão feio?”

GD: “O senhor afirma ter medo de que a tabela chegue aos clientes e vá prejudicar o mercado… Se conhece tão bem o mercado, por que se incomodou tanto com a tabela? O senhor não é presidente de uma Federação que devia justamente tratar disso? O seu preço é tão baixo para temer que ele baixe ainda mais? E essa polêmica que o senhor criou não facilitará que a tabela chegue ao conhecimento de clientes que sequer haviam tomado consciência dela?”

GD: “O que o design necessita não é de “dignidade profissional” para ter reconhecimento público e começar a ser valorizado? Essa dignidade não depende de uma qualificação teórica que a justifique?

GD: “O senhor afirma que a melhor maneira de se saber o quanto cobrar é ligando para o senhor, ou para seus amigos ‘mais experientes’… Esse ‘mecanismo’ que o senhor diz conhecer com larga experiência, não seria o mercadinho de chicana que conhecemos por “corporativismo”?

GD: “O senhor acha tão vulnerável o mercado; porém acha mesmo que pode regulá-lo? O senhor crê que Design está na conta de commodities e que uma tabela ou a sua Federação irão regular os preços? Não sabe que o valor de uma logomarca depende mais do preço da farinha do que de todas as tabelas e comentários em vídeos e no Facebook? O senhor, que conhece tanto o mercado, nunca estudou Economia Política?”

GD: “O senhor poderia repetir que as tabelas da SIB, da ADG, da ABIPRO e da ADEGRAF não valem nada, como ficou subentendido no vídeo?”

GD: “O que o senhor está propondo – esse jogo de influências e contatos entre amigos, não é o que se denomina normalmente ‘fechar o mercado’? Não é isso que trava o desenvolvimento de centenas de novos designers com novas ideias e a construção de um novo mercado?”

GD: “O senhor está com medo de perder sua boquinha?”

GD: “Como é sabido há algumas décadas, o mercado não se abaliza mais por tabelas desde o século XIX. A partir de suas opiniões, no entanto, depreendemos que o senhor é favorável à instituição de um sistema de Guildas ou Corporações medievais. O que o senhor acha de outras formas de inserção e construção de mercado – tais como permutas, redes colaborativas, cooperativismo, etc?”

GD: “Defendendo o seu mercado, não estaria o senhor fechando-o dentro de uma gaveta em sua cabeça (enquanto a outra gaveta está preocupada em como gastar o dinheiro ganho)?”

GD: “No vídeo, o senhor assevera que o que realmente quer é ‘comer, pagar as contas e ganhar dinheiro’. Isso não é o que define o conceito de mediocridade? O senhor então não está interessado em realizações no campo artístico, inovações e criações de acessibilidade, ressignificação do descarte industrial, métodos produtivos ambientalmente responsáveis, objetos que compreendam sentido estético e produções que levantem questionamentos, geração de consciência política… – contribuições ao mundo, enfim?”

GD: “Ao senhor interessa, então, apenas seu próprio sustento – e não fazer Arte e através dela subsistir dignamente?”

GD: “Suas opiniões não são as que normalmente se espera de um assessor da burocracia de gabinete ou de um aposentado do Banco do Brasil? Será por isso que se mexeu e se incomodou tanto com uma ‘tabela inútil e imprestável’, segundo suas palavras”?

GD: “À pesquisa de TCC, o senhor qualifica de ‘brincadeira’. O que diriam o professor orientador da pesquisa e os professores da banca e do departamento em que o TCC foi realizado? Eles são também inexperientes no mercado, é isso que o senhor quer dizer?”

GD: “Se o senhor conferisse algum valor ao conhecimento acadêmico, saberia que um TCC é apenas uma pesquisa, não uma tese científica; e que uma tese científica é apenas uma hipótese – do contrário seria um dogma. Segundo seu discurso, o conhecimento mais importante é aquele ‘prático’, a experiência da atuação profissional: poderíamos então dizer que o que interessa realmente é o conhecimento empírico do pedreiro na construção civil, em detrimento do conhecimento do engenheiro e do arquiteto?”

GD: “O senhor diz que queria muito um ‘guia do ilustrador no início da carreira’. Por que agora (em fins de carreira), sente-se tão incomodado com o guia do ilustrador feito pelo designer no RS?”

GD: “ ‘A primeira aula de um curso de Artes deveria ser sobre adequação de valores e contratos de licenciamento de imagem’ – é isso mesmo o que o senhor disse, ou entendemos mal? E qual seria a diferença entre o curso de Administração e o de Artes?

GD: “O senhor defende direitos de imagem, copyright e por acaso é fervorosamente contra a pirataria e o livre acesso de informações pela internet? Então o senhor possui conhecimentos notáveis e gostaria de preservá-los e restringir o acesso a eles?”

GD: “Tomamos a liberdade de propor-lhe uma ponderação: o senhor se oferece a ‘levar uma apresentação de 4 horas a qualquer Universidade de Artes’… Alertamos que seria ridicularizado – tanto quanto uma apresentação da Gretchen no banquete dos prêmios Nobel em Estocolmo! O que o senhor pensa é justamente o que não deve ser levado à Academia. Pelo contrário: a Academia deveria produzir novos conhecimentos e direções para a atuação dos profissionais no mercado (não reproduzir práticas de maneira tecnicista, sem refletir sobre elas).

GD: “O senhor afirma que a Academia e os trabalhos acadêmicos são ‘inúteis’. O que o tornou um profissional? O senhor é a favor de acabar com o Ensino Superior de Design no Brasil e substituí-lo por cursos técnicos de curta duração sobre o mercado ou por seus vídeos no Youtube?”

GD: “O senhor afirma com razão que não se deve ‘capitalizar popularidade’ em cima de uma questão que ‘mais prejudica do que ajuda’. Mas não é isso que o senhor está fazendo?”

GD: “Se o senhor conhece tão bem o mercado por estar a tanto tempo nele, não estaria então na hora de trasnformá-lo? Ou o mercado como está, sem questionamento de novatos, está bom? Porque, para os novos designers esse mercado que o senhor defende não parece ser muito produtivo…”

GD: “O senhor se impressiona com um professor na universidade dando aula sem conhecer o mercado… Não será mais impressionante ainda que uma pessoa como o senhor, há tanto tempo nesse mercado, não saiba qual é a função da Academia? Diferente do seu prosaísmo, a Academia constrói ciência, e não mercado. O mercado criam os pedreiros, que efetivamente não precisam da Universidade como os engenheiros e arquitetos. A Academia deve pensar a Arte e a Filosofia; é um espaço privilegiado para isso, senão o único. Não é realmente impressionante um senhor de cabelos brancos dando um piti na internet contra um jovem recém-formado?”

GD: “Ao final das contas, todos perceberam que quem está mais interessado na tabela é o senhor… Não será porque é presidente de uma Federação que deveria ter feito justamente pesquisa de mercado e não o fez? Se a tabela em questão mobilizou tantos acessos e downloads em tão pouco tempo, não será porque é isso mesmo o que está faltando aos novos profissionais? Não será isso que as Federações estão deixando de fazer – dar suporte a quem está entrando no mercado, ao invés de acachapá-los publicamente pela internet? Não será porque o design não é valorizado no Brasil justamente porque não olha para a sociedade? A extensão desta polêmica não terá como pano de fundo nossa herança colonial, nossa falta de instrução acadêmica e intelectual?”

Fique quem quiser com o mercado prosaico e pequeno burguês que é radicalmente oposto à Arte e interpela seu desenvolvimento com inúmeras contradições… Vou eu aqui, tentando superá-las e viver dignamente sem oprimir ninguém, buscando novas formas de prática e de pensamento (e pensamentos sobre a prática), abrindo ao invés de fechar, assimilando ao invés de excluir, pensando que os tubarões não são homens…

Deixo por fim o poema do Brecht, esse sim preocupado em mudar o estado de coisas e contribuir com a sociedade:

SE OS TUBARÕES FOSSEM HOMENS

Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais.
Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis; se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim que não morressem antes do tempo.
Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos. 

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões.

Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. A aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos.

Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. 

Entenderiam os peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Sobretudo, os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista, e denunciar imediatamente aos tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações. 

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Aos peixes pequenos seria anunciado que eles seriam reconhecidamente mudos, mas que silenciariam em diferentes línguas e não poderiam portanto se comunicar. Todo peixe pequeno que,na guerra, matasse outros peixes mudos de outras línguas inimigas, receberia a ordem das algas e seria condecorado como herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, havia belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas goelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nos quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as goelas dos tubarões. 

A música seria tão bela, tão bela que os peixinhos sob seus acordes, a orquestra na frente entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos .

Também haveria uma religião ali. Se os tubarões fossem homens, ela ensinaria essa religião e só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.

Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.

Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar, e os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser professores, oficiais, engenheiro da construção de caixas e assim por diante. 

Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

Bertold Brecht

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5 pensamentos em “3.

  1. Pingback: Dilemas do Design V: corporativismo | Filosofia do Design

    • É como eu digo: só se preocupa com o mercado; então não pensa (certamente porque não tem tempo, calculando seus milhões…) Eis o resultado – não sabe escrever (nem pensar) em lógica formal! Se os argumentos são pífios: quais são, e como rebatê-los? (não sabe porque não tem o que dizer…). Se eles são irrisórios, não deviam preocupar, (no entanto preocupam a ponto de ler e responder). Se meu negócio (qual?) vai falir, então é suficientemente inócuo para atrapalhar o “seu” mercadinho, no “seu” mundinho de Pequeno Príncipe… Agora vai olhar no dicionário o que significa inócuo (e pode atribui-lo a você mesmo).

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  2. Pingback: Talknow Especial 02 – Nova Geração vs. Velha Guarda | Design & Chimarrão

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