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Magritte

(Vamos imaginar que não existe nenhuma intenção especulativa sobre o artista):

“Um artista argentino vence prêmio de concurso da Petrobras mesmo sem anexar a foto de obra, como rezava o edital. Enrique Ježik ficou surpreso com a notícia de que receberia o equivalente a R$ 223 mil (US$ 100 mil) por ganhar o Prêmio ArteBA-Petrobras de Artes Visuais, com seu trabalho ‘Aguante’: O espanto se deu porque, para participar do concurso era necessário que os artistas enviassem uma fotografia de uma de suas obras, porém ele se esqueceu de anexar o arquivo da imagem. ‘— Eu honestamente fui pego de surpresa. Reclamei por uma semana quando percebi que não tinha anexado o arquivo no e-mail de inscrição. Ainda não sei o que pensar.’

Macchi Jorce, um dos membros do júri, disse que eles interpretaram ‘isso como um ato ousado, uma espécie de performance que transcendeu os limites físicos da arte’

                — [Foi] um desafio para as próprias bases do concurso, que buscava algo físico, um arquivo digital, mas que no final das contas é apenas e sempre uma ideia.

O curador mexicano Cuauhtémoc Medina, outro dos jurados, afirmou: ‘nós gostamos da ideia (…) tivemos a sensação de que ele estava quebrando o mundo digital, e foi uma atitude corajosa’.

Apesar da felicidade por receber o prêmio, Enrique declarou que se sentia ‘chateado porque pensaram que esse era o meu trabalho’:

               — Me fez pensar se eu teria ganhado com o que, de fato, era o meu trabalho.”¹

Você foi pego de surpresa, mi hermano, mas nós não. Era tão provável ganhares quanto o macaco Tião, que não estava inscrito no certame: nada nos espantaria… A crítica, os juris e curadores desse país (que por contingência são as mesmas pessoas) já perderam o rasto da vergonha na cara chamada ética e probidade profissional; mesmo o último resquício dela – a “perplexidade”. Um pó de pirlimpimpim fez com perdessem toda e qualquer sensibilidade. Gullar afirmava que um dos fatores da aceitação da arte moderna era o medo que os críticos tinham de cair novamente no ridículo, quando desprezaram o Impressionismo. Agora isso se repete, como farsa. A marmita requentada da Europa já não tem mais gosto, mas a crítica brasileira continua ruminando-a (e por isso os artistas continuam produzindo essa porcaria). Chega de Arte Conceitual! Este rei nu já rolou as escadas há muito tempo, já lhe deceparam cabeça e falo. Se é pra copiar as vertentes e teorias europeias, façam como elas: tratem essa “arte do vazio” em seu devido lugar: no vazio.

O caso é que nesse contexto da crítica, quando o sexo não é explícito, é reprimido – são os extremos da crítica no Brasil. O mínimo que poderia acontecer é um absurdo como o caso do artista argentino. Não precisava foto, meu caro Enrique, não precisava nada para desnudar a comissão julgadora. É apenas preciso “pensar” (nem é preciso “existir”). A existência é vazia, a experiência estética não tem importância, a plástica na arte e na literatura nada mais significa, uma imagem não fala mais por mil palavras! O que interessa é algo que está “quase…”, no “entre…”, no “não…”, no devir, na distância entre significado e significante… (e isso me lembra qualquer coisa do Heidegger alucinado dos idos de 1947…). Não interessa se constava a foto de teu trabalho: teu trabalho não interessa – o que interessa é o vazio! Não precisava mais nada  para deflagrar a estultice da banca julgadora, que ainda está no papo da “atitude”, do “ato ousado”, o kunstwollen duchampiano, numa catastrófica tentativa de emendar o mau soneto.

Isso, no entanto, é apenas sintoma. Vive-se tempo de partidos, “tempo de homens partidos”. Os Editais públicos da cultura insuflaram uma geração nova, viral. Fundamentais (imprescindíveis mesmo) quando surgiram, para o fomento nacional da arte, hoje travam o seu desenvolvimento. Com a cumplicidade dos artistas, claro.

Vejam só: recentemente um amigo, excelente desenhista, enviou um projeto à mesma Funarte que cometeu a grosseria supracitada. Tratava-se de um prêmio. O projeto foi classificado, porém abaixo da nota de corte e não passou. Ele então solicitou à banca seu escore: todas as notas eram ótimas, menos em um dos quesitos, determinante em sua colocação – “argumentação”. Acontece que ele é desenhista. Eu repliquei: “meu caro, sabe quem não passaria nesse Edital? Michelangelo Buonarroti. Da Vinci, quem sabe, que era bom de prosa, mas o Mike não passava!” Pois bem! agora ganha um artista sem obra plástica! Qual o significado deste significante…? Resposta: incoerência da crítica.

Analisemos por outro viés. O artista que ganhou aquela bolsa Funarte (a qual esse desenhista concorria) já havia ganho 5 prêmios da mesma Instituição. Cinco! Sem discutir o mérito das obras, isso deixa claro uma coisa: não se pratica mais o bizantino método das “cartas marcadas”. O que está em voga é mais sofisticado: é um jogo de “discursos marcados”. Se fulano transita nos espaços em que críticos transitam (digamos, uma roda ampliada de amigos que, após a vernissage, vai dar uma esticada num restaurante fino), ele fica a par da letra que a crítica dá; o mesmo acontecerá se estiver atento aos discursos de curadores nos catálogos (e isso que haviam decretado a morte das grandes narrativas e dos discursos na pós-modernidade!), ou ouvir de socapa o papo dos críticos nas galerias. Assim há de aprender qual linguagem falar. Essa é a verdadeira “Linguagem” (bem diversa da que Heidegger propunha) da arte contemporânea: o léxico e o tom dos Editais.

Não estou dizendo que é confortável para os artistas – vida de artista (artista “mesmo”), nunca é confortável. Pelo contrário, esta situação de aparente conforto é na verdade incômoda: tem ele que falar a linguagem da crítica e dos curadores, ou fica fora do Sistema das Artes atual; como diria bem Anne Cauquelin: fica fora da “rede”. Essa é a ditadura da liberdade – uma ditadura “supra”ideológica, que diz estar acima de ideologias e discursos, mas mantém uma rede de poder concentrado em pessoas estranhas à arte: justamente os connaisseurs, a intelligentsia que hoje pouco tem a ver com a real “produção artística contemporânea”.

A própria FCC, essa medusa cega, acaba de ter a lucidez de extinguir o Mecenato em Curitiba em nome do Fundo Municipal de Cultura, por achá-lo mais democrático. Sinal, talvez, de que há alguma percepção das armadilhas do sistema de Editais. Duas armadilhas notáveis: o Edital “público” deve priorizar o interesse “público”; contudo, sendo subvencionado pela iniciativa “privada” nos Mecenatos, vincula a seleção a interesses “privados”. A outra armadilha é que todo Edital que se preze, escolhe para compor sua comissão julgadora autoridades com “notório saber na respectiva área” – ou seja, sempre as mesmas 30 ou 40 pessoas com “notório saber na respectiva área” que existem no Brasil.

Estas contradições serão dificilmente superadas, e não espero que sejam. Desejo que se esclareça o fato de que não são os artistas que dependem das Instituições, mas as Instituições quem depende dos artistas para sobreviver. E assim críticos, curadores, galeristas, marchands, diretores culturais, produtores culturais, produtores executivos, assessores de imprensa, articulistas, etc. E que as comissões julgadoras são funcionárias do Estado: portanto dependem elas da opinião do público.

Senhor e senhora de “notório saber” – sugiro que ao contemplar um projeto, verifique antes do quesito “argumentação” ou “ousadia”, o quesito “relevância pública” do mesmo.

¹ Acessado em <http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache%3AS7f4-3TLQ7MJ%3Anoticias.r7.com%2Finternacional%2Fmesmo-sem-anexar-foto-de-obra-de-arte-argentino-vence-premio-de-concurso-da-petrobras-24072013+&cd=11&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br>

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