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Carvão, Gustavot DiazPeço um minuto da atenção de vocês para refletir sobre o que está em curso no atual momento político – este nos custará, talvez os próximos 6 anos de nossa história.

Gostaria de ter a chance de pegar em armas, meus amigos; acho que a democracia vale esse preço; assim ao menos seria uma reação a este ato de violência simbólica brutal que marcará indelevelmente a história do país e a de nós todos. Uso, entretanto as únicas armas de que disponho: as palavras. Se não forem lidas, mesmo esse direito me estará sendo vetado.

Caso prefiram a versão do jornal que costumam ler e assistir porque desacreditarem outras fontes julgando-as interessadas, peço que ouçam a minha versão. Vocês me conhecem, conviveram comigo e portanto sabem da minha idoneidade.

Nunca fui petista; a única ocasião em que votei no PT foi em 2002 (no segundo turno da eleição onde Lula assumiu a presidência pela primeira vez), e fui à rua comemorar a vitória junto de milhões de brasileiros. Passados três meses eu estava de volta às ruas, desta vez manifestando contra a “privatização” da Previdência Social, e logo depois contra a Reforma Universitária (políticas liberais que o PT na época fez passar). Desde então, fui um anti-petista radical; o que defendo agora não é o PT, nem Dilma, mas um princípio vital, muito mais importante que qualquer partido político: a “democracia”.

Essa democracia sofreu um trauma 50 anos atrás, efetuado por certos setores sociais, com o apoio das camadas médias. Nunca perdoei a geração de meus pais por ter deixado passar a Ditadura Militar. Mas hoje compreendo que não puderam evitá-la, pelos mesmos motivos que hoje me impedem: parte da população a promove abertamente nas ruas. Isso deslegitima qualquer argumento contrário; faz parecer que ir contra as ruas é antidemocrático.

Técnica mista, Gustavot Diaz (3).JPGSei que nenhum de vocês defende a Ditadura. A política, porém, possui uma dinâmica prática: defender o impeachment só é um direito porque existe democracia; mas este processo abre um precedente perigoso, significa efetuar um “golpe branco” onde aqueles setores conservadores de ontem podem assumir novamente o governo, sem eleições, e agora sem sequer a necessidade de uma operação militar, como em 64.

Depois de se trucidar militantes nas fronteiras e se torturar opositores ao regime nas cidades, passou-se a proclamar que não era mais necessário o uso da violência, que a democracia nos tornou “civilizados”; que pegar em armas era, enfim uma loucura e uma tolice. Toda resistência fora desarticulada – primeiro com a força do exército, depois com a mídia corporativa. Tanto é, que hoje não existe qualquer espaço para resistência armada: teremos somente marchas simbólicas e palavras proforma de protesto.

Defender esse impeachment acarreta uma consequência catastrófica: a substituição de uma presidenta sob a qual não pairam sequer suspeições por corruptos reputados. Não sou contra processos de impeachment –podem ser saudáveis no caso de livrar o país das mãos de um déspota. Só que estamos prestes a entregar o país nas mãos de um déspota e seu sequaz: Eduardo Cunha e Michel Temer. Enquanto este último já se gaba publicamente de ser o presidente da nação, dando sumariamente por encerrado um processo que ainda nem começou, o primeiro já anuncia sua agenda para a semana: terceirizações – o maior assalto aos direitos trabalhistas de nossa história recente que há meses ele tenta aprovar na Câmara Federal.

Em que pese toda rejeição, Lula continua a liderar as intenções de voto; e a oposição sabe disso. Mais do que saber, a oposição teme perder as eleições em 2018 e compreende que o impeachment é a única chance de retornar ao poder. Bastaria esse cenário para qualificar o impeachment como um golpe de Estado. Mas há ainda outros fatos:

  1. Eduardo Cunha manifesta publicamente a intenção de criar uma “onda pró-impeachment durante a votação” do processo. Tendo a direção da casa, deveria conduzir uma votação impessoal, mas a chamada dos deputados a votar sequer foi discutida na Câmara (foi “definida em almoço que ele fez com aliados em sua própria casa”)
  2. A sucessão de Cunha já está previamente negociada. Em caso de “eventual governo de Temer”, Rogério Ross (presidente da comissão que aprovou relatório favorável ao impeachment), é o favorito para assumir a presidência da Câmara dos Deputados. Conforme acordo entre PMDB, PSD, PTB e PR, Cunha renunciará ao cargo e “em troca do gesto e de sua atuação na derrubada de Dilma, não teria o mandato de deputado federal cassado por seus colegas”
  3. “Pedaladas fiscais” não são crime de responsabilidade; todos os governos anteriores, desde 2000, têm usado este procedimento na intenção de cumprir sua meta fiscal
  4. Dos 38 deputados que votaram a favor da instituição do processo de impeachment, 35 estão sendo investigados na justiça, enquanto apenas 2 dentre os que votaram contra têm acusações no judiciário. O pretexto de “moralização do país” é, portanto nula. Entre os deputados favoráveis à cassação estão MARCO FELICIANO, EDUARDO BOLSONARO, LUIZ CARLOS HEINZE, FERNANDO FRANCISCHINI (responsável pela violenta repressão aos professores ano passado no Paraná), PAULO MALUF (acusado de crimes contra o sistema financeiro nacional e crimes eleitorais.l BENITO GAMA (que responde por crimes eleitorais, JÚNIOR MARRECA (emprego irregular de verbas públicas), NILSON LEITÃO (crime de responsabilidade), PAULO MAGALHÃES (crimes eleitorais), PAULO PEREIRA DA SILVA (crimes contra o sistema financeiro nacional), WASHINGTON REIS (crimes contra o meio ambiente e formação de quadrilha), WEVERTON ROCHA (crime contra a lei de licitações).

Peço aos amigos e familiares que confiem em mim e reconsiderem com responsabilidade este assunto; estamos abertos ao debate. Peço encarecidamente que procurem fontes alternativas às notícias veiculadas pela Rede Globo e seus associados: o cotejo é uma forma mais inteligente de analisar fatos políticos.

Escrevo esta carta aberta com o objetivo de mobilizar, senão forças, ao menos consciências a fim de que possamos reagir de alguma forma a esse processo. Julgando combater a corrupção, corromperemos a nós mesmos se servirmos de massa de manobra na disputa de um poder que nunca foi nosso, e está cada dia mais longe de sê-lo.

 

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Gustavot Diaz
Porto Alegre, 13 de Abril, 2016

Imgens do post | GUSTAVOT DIAZ

Capa | PHOSU

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Um pensamento em “CARTA ABERTA | Para amigos e familiares

  1. gustavo, acho que na atual situação por que passa o brasil,cabe, justamente a palavra “acrasia” – ou seja, desregramento, intemperança. eu diria mais: apesar de sabermos o que deveria ser feito, ainda me ocorre uma aporia. se tiveres uma resposta mais acalentadora seria um bálsamo para nós, pobres brasileiros.
    abç
    j.paula

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