Home

Ontem surgiu mais uma polêmica inquietante nas redes sociais. Em uma simples foto jogada no twitter, bebê apoiava-se em uma janela – mas muitas pessoas afirmavam não enxergar a imagem do bebê… Hoje, numa enquete feita por um site na web com cerca de 70mil respostas, 96% das pessoas dizem enxergar um bebê na foto; outros 3% dizem não enxergar bebê nenhum.

Trata-se de uma brincadeira, mas desvela uma condição da visão capaz de ressituar o questionamento acerca de como vemos o mundo (e nós mesmos). Esse caso é bem diferente daquele do vestido que gerou polêmica nas redes sociais. Sendo uma imagem figurativa; mais do que isso, um corpo humano, o corpo de um bebê, a afirmação de que ele aparece ou desaparece, que a alguns é visível, a outros invisível, evoca uma questão crucial para compreender de nosso presente: uma coisa nunca é a mesma se olhada por mais de uma pessoa. Esta realidade bastante óbvia é, entretanto esquecida diante de qualquer conflito de interesses ou discussão de pontos de vista.

cylw5nhwgaarveh

O fato, difícil de aceitar se fosse verdade, é que de fato pode haver um bebê e não haver um bebê. Nenhuma das visões seria a correta porque nenhuma visão, por ser única, pode dar conta da totalidade do mundo; é incapaz, portanto de responder às demandas plurais de nossos desejos e questionamentos. Essa limitação implícita em qualquer visão impossibilita saber não apenas “qual é a verdade”; ela inviabiliza a própria “existência de verdade” no universo humano. Não há certo e errado; e é difícil (realmente amedrontador) nos situarmos entre múltiplas, infindáveis visões de mundo.   

O movimento da terra em torno do sol, as transformações das espécies no decurso da seleção natural, o lento e incessante desenvolvimento de conflitos que resulta na guerra: qualquer transformação que delineie mudanças de paradigma é historicamente percebida pelo senso comum como uma verdadeira catástrofe: leva à reação e à irredutibilidade – abrigos da incompreensão diante do mundo.

O interesse na polêmica fotografia é que ela evidencia nossa incredulidade sobre o ponto de vista do outro. Quer dizer, não sabendo que se tratava de uma brincadeira, aqueles que vêem o bebê (a maioria), custam a acreditar que alguns (a minoria) não o vejam. É claro que esses últimos estavam mentindo; mas, e se fosse verdade?! Se fosse verdade teríamos uma ótima ilustração de nosso momento sócio-político, onde um determinado projeto de sociedade é incapaz de compreender outro que se lhe oponha. Não é que “discorde dele”; pior, é incapaz de acreditar que ele possa existir. Essa negação absoluta de alteridade é a causa da dificuldade em respeitar o outro e conviver com ele e sua diferença em relação a nós. O outro é jogado no limbo da inexistência, deposto sumariamente por nossa descrença, a fim de que não tenhamos que nos preocupar com suas instâncias, suas necessidades, aquilo que sua opinião implica em nossa própria liberdade e conforto.

Bundesarchiv_Bild_146-1988-001-25_Berlin-Lichterfelde_Leibstandarte-SS_Adolf_Hitler-890x395

Vemos no Brasil uma cada vez maior irredutibilidade ante questões fundamentais e cada vez mais uma obstinada negação em compreender opiniões, posições e comportamentos alheios, de onde resultam fanatismos de todos as ordens – religiosos, fascistas, racistas, sexistas, etc. Mais do que saber se há ou não um bebê naquela foto, nos cabe ver, por exemplo, que a polarização ideológica e a recusa dos representantes políticos em atender demandas fundamentais de setores excluídos da sociedade (tidos como minorias) indicam um fenômeno bem mais impressionante e (este sim) assustador: a absolutização de um único ponto de vista – sinal de que uma só classe tem decidido a visão das outras e determinado o futuro de todos.

 

ed4057d4e505796aa7af9382b7249344

imagem da capa | GOTTFRIED HELNWEIN, “Kindskopf (Anna)” | óleo sobre tela, 2013, detalhe

Anúncios

Um pensamento em “Ver ou não-ver…

  1. caríssimo Gustavo.
    o que seria do azul se todos gostassem do vermelho? É só a vida acontecendo, bom pra uns, nem tão bom pra outros. Isso se chama VIDA.
    Abç
    Jovita

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s