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[lançado publicamente em Março de 2014]

ISTVÁN SÁNDORFI (óleo sobre tela)

ISTVÁN SÁNDORFI (óleo sobre tela)

Livrem o mundo da doença burguesa, da cultura ‘intelectual’, profissional e comercializada. Livrem o mundo da arte morta, da imitação, da arte artificial, da arte abstrata, da arte ilusionista, da arte matemática, – livrem o mundo da ‘Europeização’! Promovam um fluxo e uma maré revolucionárias na arte. Promovam uma arte viva, uma antiarte, uma realidade não artística, para ser compreendida por todos, não apenas pelos críticos, diletantes e profissionais… Unam-se os movimentos sociais, culturais e políticos revolucionários numa frente única de ação!

George Maciunas (1963). Manifesto escrito pelo ativista do Grupo Fluxus, pioneiro da Arte Conceitual e que cunhou o termo em 1961, nos Estados Unidos.

A realização do desenho é o próprio desenhista. É nele que se imprime o sentido das linhas, nele a fluidez rítmica das ideias e o universo simbólico que guardam em si: no desenhista é que o “conceito” nasce. Depositário primeiro e último da experiência, também o desenhista necessita do desenho, de sua fisicalidade, a fim de encontrar sua razão. Rito inalienável, o desenho consolida o monumento interior que se erige no momento da concreção humanizante da linguagem – instante que não é ação do minuto do insight, mas consequência de incontáveis horas – indispensáveis à criação do instante.

A potência da imagem hoje e os níveis a que chegaram sua possibilidade de manipulação digital, sua reconfiguração cinematográfica e amplitude de difusão nas redes virtuais, o avassalador retorno à pintura em escala global e o Hiper-realismo Contemporâneo – suas manifestações na atualidade, enfim – aliadas à veiculação de recentes interpretações sobre os conceitos de “mímesis” e de “representação” têm produzido uma conjunção dialética que requer uma revisão dos conteúdos acadêmicos na contemporaneidade. Assim como o pensamento não opera sem objeto, acreditamos que a Academia de Artes Visuais não pode descurar da prática artística em seu campo – ou melhor, em seus campi. Estar em dia com as filosofias correntes, porém em descompasso com a própria realidade contextual não dará subsídios maiores para compreensão do papel do artista na contemporaneidade ou do lugar da arte – temas hoje tão debatidos na Academia, mas restritos ao campo teórico.

Aleah Chapin | "It was the sound of their feet", 2014

Aleah Chapin | “It was the sound of their feet”, 2014

A idiossincrasia que norteia a produção artística atual é o pensamento de alguns filósofos cujos nomes temos visto com frequência reiterada em textos de crítica e curadoria nos últimos 15 ou 20 anos. A fim de que as concepções desses teóricos não sejam transformadas em “receitas aplicáveis” (como na conformação dos conteúdos academicistas do século XIX), subordinando nesta operação a arte à filosofia, e vice-versa, seria preferível que expressássemos efetivamente da maneira mais radical a abertura experimental que tais filosofias propõem. Aplicando-as como um “receituário”, são elas despotencializadas, tão somente podendo se conjugar na forma de utopias numa conjuntura emergente como a latino-americana.

Quando teorias (que em seus campos são diapasões afinados às condições e disposições do real) são tomadas como fontes diretas ou diretrizes da produção artística ou de seus critérios valorativos, retrocedemos à perigosa afirmação de que a “a arte é a criada de quarto da filosofia”. O que nos vale o título de “berço da pós-modernidade” – onde, no formidável dizer de N. G. Canclini “as tradições não se foram e a modernidade nunca acabou de chegar”; ou o de espelho alegórico do mundo e metáfora de “pós-moderno” – é justamente a total liberdade de criação que nos é prerrogativa,  sem os constrangimentos de um pesado passado cujo lastro poderia engessar nossa força criativa. Nossa força reside no futuro, e a liberdade de nossa história recente – liberdade de transitar por entre o clássico e de recombinar os símbolos históricos, dissolvê-los, reconstituí-los, eleger nossos antepassados e dialogar com os signos enraizados na cultura popular – nos autoriza a protagonizar um amplo processo de resistência.

Também a falta de soberania de nosso Estado nos garante um nomadismo insubmisso frente a sua decadente autoridade institucional. É aqui, neste país continental, onde a desterritorialização do Capital incide furiosamente, como a erosão nas áridas terras sertanejas, que deveríamos nos permitir a toda e qualquer liberdade operacional – livrando a arte do tutelamento do Estado e restituindo um ofício capaz de conferir liberdade ao artista; noutras palavras, o domínio técnico – a fim de desconstruir as estruturas ainda em disputa, emergindo da negatividade para uma dialética positiva de transformação e posse de nossa própria contemporaneidade.

Confira o Manifesto na íntegra: http://manifestodoconceitoaodesenho.wordpress.com/

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Um pensamento em “Do conceito ao desenho:MANIFESTO

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