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DeAngel |"Born to see TV" (óleo sobre tela, 201)

DeAngel |”Born to see TV” (óleo sobre tela, 201)

“As multinacionais decidem o estilo de vida, o que vou vestir, o que vou comer, o que vou pensar. Eu costumo dizer que os grandes filósofos do século 20, da segunda metade do século em diante pelo menos, são os publicitários, que nos dão diariamente a pauta de comportamento e a pauta de vida. Não temos hoje nenhum Schopenhauer, Espinosa ou Heidegger. O que temos são publicitários. Há importantes acadêmicos, é claro, mas os filósofos do dia-a-dia estão nas grandes agências de publicidade que alimentam simbolicamente esse modelo de capitalismo consumista que é dominante hoje no mundo”.

Flávio Tavares

Uma amiga, hoje estilista, trabalha em uma multinacional de atacado e moda – uma dessas lojas de departamento que vendem roupas fabricadas na China. Sua função como designer de moda é ir uma vez por ano até às principais capitais da Europa com tudo pago pela empresa, copiar tudo o que vir nas vitrines e “alterar um pouco” para que sirva de modelo às roupas da próxima estação aqui no Brasil. Uma fala sua me fez refletir muito. Falávamos sobre certo tipo de roupa que as mulheres estavam usando naquele momento; ela olhava pessoas aleatórias que passavam e dizia: “isso foi eu que desenhei”; “aquilo lá também”, e assim por diante. Eu não conseguia entender como algo tão feio era fabricado em tamanha proporção e obter tanto sucesso de público. Era da mesma opinião que eu quanto à estética (também achava feio), mas refutou a segunda afirmação, dizendo: “Ora, a empresa fabrica porque existe público!”.

Duane Hanson, 7Essa é uma frase chave para a compreensão das chamadas “tendências da moda”. O que parece um pensamento lógico, expresso todos os dias pela indústria, oculta a simplicidade de um detalhe que fica aquém da “dialética do gosto”: o público só gosta de uma coisa – primeiro porque a conhece; e não o contrário. Como pintor, bem cedo aprendi que os consumidores de arte compram o que está pendurado nas paredes do atelier. Isso é uma circunstância que todo artista profissional conhece: se o cliente vê paisagens, vai querer paisagens; se vê figura humana, é isso que ele quer, etc.

As pessoas gostam daquilo que veem; compram aquilo que antes conhecem. Porém, assim como as empresas de roupa, também as editoras de livros, notícias e especialmente as gravadoras de discos, insidiosamente se utilizam do argumento contrário: “Produzo isso porque vende; fabrico porque o povo gosta”. Não diremos ingenuamente que se trata de mero engano, algo “não calculado” pelos fabricantes – essas conhecidas aves de rapina. Não é engano: é mentira. Fazem-no de propósito porque supõem que a mentalidade do público em geral é de tal modo atrofiada que só conseguirá aquilatar uma produção de menor complexidade e, portanto de qualidade inferior.

Aprioristicamente julgando o público incapaz ou limitado culturalmente (limitação, no entanto, que eles mesmos ajudam a criar), as gravadoras desovam no mercado apenas a produção que esse suposto público pode assimilar: produtos de baixa qualificação cultural. Em termos bem claros: partem do princípio de que o povo é burro; então, não adianta produzir e distribuir milhões de cópias de discos de música erudita, nem minimamente sofisticada porque vai encalhar; o povo é incapaz de digeri-la intelectualmente e por isso não irá comprá-la; o caminho mais imediato para o lucro é produzir aos borbotões o que já se produz, o que já deu certo  (como sertanejo universitário, por exemplo) porque é isso mesmo que o povo gosta; logo, compra.

O sofisma está no último argumento conjeturado: “o povo gosta, e portanto compra”. O que acontece na realidade é precisamente o contrário: o povo compra porque tal “artista” foi produzido aos borbotões, o que mobiliza a política do jabá, fazendo a música tocar desesperadamente em todas as rádios, televisão, nos programas de auditório, nas novelas, etc. A política da produção em massa condiciona um enorme sistema de distribuição – da music venue e setores especializados às lojas de departamento, a fim de escoar a gigantesca produção. O povo compra porque lhe foi empurrado goela abaixo, porque lhe foi posto diante dos olhos ostensivamente, obrigatoriamente. Assim sendo, o público conheceu a produção e então, não tendo outro objeto a que se direcionar seu gosto, adaptou-o a ela.

Duane Hanson, 4Podemos depreender desta concepção da grande indústria e distribuidoras também claros rasgos de perversão e oportunismo. Na visão delas, o “público” é uma massa compacta e homogênea, sem individualidade e consequentemente sem possibilidade de distinções de gosto, opção política, sexual, etc. – onde a perversão está no desejo de determinar a circunscrição das características de uma “maioria” e definir suas idiossincrasias. Como disse Deleuze: “A ‘maioria’ é algo que supõe a existência de um padrão. No Ocidente, o padrão de qualquer maioria é ‘homem’ ‘adulto’, ‘cidadão’. Portanto obterá sucesso quem realizar este padrão. (…) Mas posso dizer que a maioria nunca é ninguém. É um padrão vazio. (…) É por isso que todos os pensadores tiveram dúvidas sobre o que chamamos de ‘democracia’.”

Já o oportunismo reside no interesse de lucro sem ônus: é mais fácil (e barato) vender um produto único para uma comunidade “homogênea” do que especializá-lo conforme o gosto individual de seus integrantes, ou o gosto típico de cada comunidade. Em escala mundial, é o que faz a “globalização”: unificando gostos e instituindo padrões hegemônicos a fim de economizar custos de produção e vendendo em escala global uma peça única.

Quero me referir a um exemplo pessoal a fim de ilustrar, a partir de uma experiência concreta, quão nocivo pode ser essa idiossincrasia das produtoras. O primeiro CD que adquiri, aos 14 anos, foi o disco Caetano Canta, uma coletânea de gravações onde Caetano Veloso interpretava composições de outros autores. Lembro-me que o comprei por ter visto a propaganda comercial do disco na televisão, provavelmente na Globo (nessa época eu ainda a assistia), cujo fundo musical era “Oceano” de Djavan – uma das faixas do disco gravadas por Caetano. Essa música em minha infância havia adquirido uma fama estonteante. Não apenas por ter sido trilha de novela (Top Model, 1989), mas por uma beleza e certo ineditismo estilístico, com violões interpretados por Paco de Lucia, e por fazer parte de um disco homônimo antológico… Enfim, algo em sua sonoridade tocou minha geração e a de meus pais a ponto de tornar-se imprescindível em couverts e trilhas de karaokê. Como eu gostava da música, e a propaganda na TV dizia constar no disco do Caetano, juntei minha mesada e comprei o CD.

Duane Hanson, 1Aquilo foi crucial, determinante – sublinho: absolutamente fundamental para minha formação musical. Por conta dele, vieram todos os outros. Caetano ali interpretava Gilberto Gil, Chico Buarque, Jorge Ben, Djavan, Cartola, Frank Domínguez, etc. e futuramente vim a adquirir não apenas toda discografia de Caetano, como a desses compositores, bem como a de tantos outros da MPB, desde a bossa nova e as baladas tristíssimas e comoventes de Antônio Maria. Eu poderia “não ter gostado”, como não gostei a princípio de João Gilberto, por exemplo (para depois vir a admirá-lo profundamente). Mas tive a “oportunidade de gostar” porque o conheci; pude constituir uma apreciação musical que, por sua natureza, me favoreceu certa autoconsciência estética, sem a qual creio que o universo musical hoje seria de algum modo menos significativo para mim.

Isso só se deu porque houve espaço na grande mídia – tocava nas rádios, apareceu na TV e eu estava atento. Independente do valor da estética da MPB, o assunto aqui é outro: hoje, 18 anos depois, ainda ouço com frequência aquele mesmo repertório. Acredito que o ouvirei durante minha vida inteira. Do mesmo modo, meus outros gostos musicais foram condicionados por ele. É claro que não se restringe a isso – ouço também muito jazz (desde o jazzão de orquestra até um jazzy folk-pop), blues e R&B, música latina antiga e contemporânea, cantoras de Cabo Verde, música portuguesa antiga, música brasileira antiga, alguma coisa do erudito, e eventualmente até RAP americano, além de muitas coisas soltas e algo do contemporâneo… Mas posso traçar a “linha genética” disso tudo, e sei que chegará ao meu gosto inicial pela MPB, pautado no primeiro disco que adquiri. Tudo isso somente porque o ouvi. Essa foi a determinante causal que implicou por assim dizer no gosto estético de minha vida inteira. E acho que dificilmente irei mudá-lo, ainda que deseje.

Duane Hanson, 5A estética é um domínio que deve aprofundar-se no decorrer de nossa experiência, devendo nossos gostos fatalmente tornarem-se mais complexos, na medida em que deixam de dar conta de simbolizar nossas experiências em profundidade. Só não muda seus gostos quem não possui experiências plenas; quem permanece sempre na infância emocional. É claro que cada qual julga que suas predileções e afinidades são as melhores – é o que justifica tê-las escolhido. Mas são “as melhores” apenas para aquele momento, funcionam somente em determinada fase de nossa consciência estética. Por isso não ouvimos músicas infantis a vida inteira. Pelo mesmo motivo, a pessoa que não estuda desenho, aos 50 anos de idade continua garatujando bonequinhos de palito: foi a última coisa que aprendeu a desenhar quando pegou num lápis seriamente para se expressar, normalmente na infância (daí porque o desenho da maioria dos adultos permanecer infantil). Se eu mantiver minhas afinidades e gostos exatamente iguais ao longo da vida é mais provável que isso signifique falta de amadurecimento minha do que qualquer suposto “valor intrínseco” dos objetos de minhas eleições. A comprovação é que justamente os artistas que admiramos mudam, também eles, de estilo, atravessam fases, são influenciados por novas referências.

Por fim, grandes gravadoras, editoras, indústrias produtoras em geral alimentam o moto-perpétuo da mesmice e da ignorância mantendo o grande público na escuridão, no desconhecimento, não apenas de uma arte mais complexa em seus termos, portadora de uma sofisticação que informe culturalmente o público, mas também de uma arte “nova”, diferente daquela massificada pelas rádios e pela televisão, e capaz de qualificar novas expressões experienciais, conferindo sentido a elas. E como criaram esse circuito limitado de gostos para um enorme público, para “não arriscar”, agora não podem investir em novas produções, diferentes daquelas já tipificadas e desgastadas, in-significantes, produzidas por eles mesmos – sua tacanhez burguesa os impede de investir em operações de risco financiando produtos sem previsão de retorno imediato.

A educação não é apenas tarefa da res publica; o âmbito do privado interfere de forma quase absoluta em nosso desenvolvimento cognitivo e nosso amadurecimento estético. Tanto o “artista”, quanto o designer estão imbricados nesta cadeia de diversas formas, basta refletir… São também eles formadores de consciência, e educadores privilegiados por meio da estética.

 

Duane Hanson, 6

Imagens do post | Esculturas em cera de DUANE HANSON

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