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Venus_de_Milo_louvreO maior favor, ou desfavor, que a internet prestou à arte foi a total dessacralização da imagem. Fez com que o xeque-mate de Duchamp parecesse um passatempo, uma piada erudita. A “aura”, tantas vezes questionada desde o expressionismo foi à pique no mundo digital. Vulgarizada ao extremo, a imagem demorará em readquirir sua potência e o que mantêm a força imagética: a possibilidade de construção simbólica. Nunca a visibilidade, intervenção e a apropriação de imagens fora tão acessível; a técnica de composição dos elementos da linguagem visual, no entanto, continua restrita. Como resultado, vemos uma infinidade de imagens que não sabemos interpretar.

É facilmente concebível que, no final do século XV, fosse vedada a Michelangelo a utilização de papel, dado o alto custo desse artigo quando de seu aprendizado no atelier de D. Ghirlandaio. Apenas com algum tempo de prática um discípulo poderia ter acesso à efetiva produção. Desde o Renascimento tardio até metade do século XIX, quando o papel de celulose foi popularizado, as imagens vistas pelo cidadão comum restringiam-se às pinturas sacras nas igrejas e conventos, aos afrescos e esculturas públicas, e a algumas folhas fugidias (como eram então chamadas as xilogravuras que circulavam nas cidades progressistas). Raras, portanto, eram as ocasiões em que ele “via imagens”.

Michelangelo Buonarroti | "Vitória", 1630 (mármore)

Michelangelo Buonarroti | “Vitória”, 1630 (mármore)

As classes dominantes, eruditas, poderiam ter produções em pintura e desenho em seus palácios e residências; ainda assim, possuir uma pintura na parede era um luxo restrito. Para se apreciar o acervo Medici, por exemplo, fazia-se necessário a intervenção de um membro direto da família concedendo a permissão de adentrar o gabinete pessoal de Lorenzo, ou sua coleção de clássicos no Jardim de São Marcos.

Mesmo no passado, era difícil interpretar as produções dos artistas. A diferença entre Michelangelo – que resolveu todos os problemas técnico-formais da cinética (movimentos do corpo), e Bernini – que criou outra modalidade de movimento, suspendendo seu peso; era pouco compreensível. Hoje, em que pese a enorme fortuna crítica de ambos os escultores, suas produções continuam ininteligíveis para o cidadão comum. Acredito que parte disso não se deve, como antigamente, à falta de acesso à imagem: mas justamente ao acesso irrestrito a ela.

“Dar acesso” não é essencialmente positivo, quando o acesso ilimitado é um disfarce da incapacidade de transmissão dos mecanismos de seleção da imagem – suas ferramentas técnicas de produção e crítica. A imagem é algo em si mesmo invisível; esta é a sua característica definidora. Pois a imagem é um código. São elementos da linguagem visual (ponto, linha, plano, cor, etc.) organizados sob determinados procedimentos e codificados em uma técnica. Por isso a produção de imagens encontra uma dificuldade intrínseca: é preciso conhecer as ferramentas de seu processo de metabolização.

Gian Lorenzo Bernini | "O Rapto de Perséfone", 1622 (mármore, detalhe) Galleria Borghese, Rome

Gian Lorenzo Bernini | “O Rapto de Perséfone”, 1622 (mármore, detalhe) Galleria Borghese, Rome

Em tempos de selfies e posts instantaneamente descartáveis, o acúmulo de imagens disponível é quase infinito; mas o número de “boas imagens”, ínfimo. Assim como a escrita parece ter se perdido no universo digital, a imagem se fraturou, alijada de seu cerne: sua função de simbolização. É forçoso concluir que, se os artistas contemporâneos não tivessem se esquecido de como desenhar, pintar e construir imagens, a utilidade seria bem pouca: não saberíamos lê-las…

 

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