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Parece mentira, mas há 50 anos tropas do exército saíram de Minas até o Rio de Janeiro, mobilizadas para depor o presidente da República e tomar de assalto o controle do Estado. Noutras palavras, furtar o poder ao povo. Era preciso construir então um significado, uma imagem que simbolizasse a situação política vivida no país: as “marchas” públicas, refletindo o avanço disciplinado das tropas, era sem dúvida o que melhor emulava a afinidade entre os adesistas e a parte do exército orquestrante do golpe. Não tardou que a ela se seguisse a “Marcha dos 100 mil”, contra a ditadura, neutralizando a carga simbólica inicial.

A história do Brasil colônia poderia ser contada como uma sucessão de postos e consequente atribuição de seus poderes. Naqueles tempos de dominação, não bastava cartas do rei e nomeações por governadores, tampouco publicação no Diário Oficial: o que assegurava domínio de fato era a presença intimidadora de armadas na costa, (nada distantes do exibicionismo bélico da Guerra Fria). Naqueles tempos heroicos, o comum era resistir ao poder…

Mas o presente é apenas uma versão ficcional do passado. Vassalos ainda demonstram nas ruas estarem às ordens do primeiro ditador, que neste momento espera, talvez sentado, um ascenso de massas para conquista de um poder já legitimado. A história, no entanto, ilustra que a própria cadeira pode vacilar e matar um opressor, como Salazar…

Tolstoi cita um famoso apelo feito aos Varengos – primeiro povo a exigir tributos às tribos eslavas no ano de 859:

Reinai e governai; prometemo-vos alegremente uma obediência completa. Tomamos para nós os penosos trabalhos e os pesados sacrifícios, mas a vós compete julgar e decidir (Anna Karenina, vol II, p. 343).

É isso, exatamente, que se alardeia nas ruas, e nos diversos eventos pró-ditadura desta semana.

ImagemHá 50 anos, quando uma pequena classe se dirigiu aos militares solicitando a intervenção, apesar de teatral, não se tratava de uma farsa – figuraram como personagens de uma tragédia (porque a história não pode ser alterada) que queriam tomar o poder através de um golpe de Estado. Hoje, a solicitação popular tem outro significado: o povo que nas ruas reivindica o regime militar é um povo destituído de poder, que deseja se entregar (como aos Varengos vikings) a um regime militar pelo fato de não se ver representado no atual regime.

Parece não haver diferença entre a ausência de poder na democracia, e o desejo de entregar o poder para que seja exercido nas mãos de militares. É na semelhança que se encontra o verdadeiro horror: em ambos os casos, significa “abrir mão do poder”.

Outra distinção obscena é que as primeiras Marchas da Família com Deus pela Liberdade expressavam um desejo de empoderamento; enquanto as de hoje representam uma auto-deposição, uma voluntária não-assunção de poder que garanta o exercício da liberdade. A reivindicação de um golpe que já fora dado e se tornara fato morto na história é no fundo uma “relutância de enlutado” – aquela por que passa uma pessoa imediatamente após o trauma, negando-se a admitir a perda e protelando sua aceitação. O que assusta mais é que depois da negação vem a raiva e a violência.

Desde que, há 50 anos, tropas do exército se mobilizaram para tomar de assalto o país o poder foi obstado ao povo, e a forma em que isso se apresenta não é outra, senão o afastamento dos cidadãos da política, a desconfiança com relação ao Estado, e principalmente a descrença na auto-organização.

Atravessamos 50 anos de ditadura… Quando irão acabar?

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imagens | OMAR RODRIGUEZ-GRAHAM

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