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Sei que é ridículo, mas teimo em falar o que penso… Os museus são a vitrine de um esporte no qual as Academias de Arte são o pivô e Bienais, Salões e certames em geral são o coroamento – o pálio no altar do pódio. É um processo visceral: Academia digere e abaliza; as Bienais expõem e chancelam com sua aceitação cega; os Museus vomitam sobre o público, que engole; enquanto as galerias fazem seu banquete. Claro que é uma relação dialética; quem engole hoje, amanhã vomita, e vice-versa.

Por mais de 30 anos os museus incorporaram o que era palavra de ordem até anteontem: o questionamento acachapante do estatuto da “imagem” e das técnicas tradicionais. Imitando a crítica acadêmica, enfiaram a tradição debaixo do tapete da História. Agora, como sempre, vão conforme a onda, contradizendo o que disseram. Uso a última exposição de Beatriz Milhazes, curiosamente chamada “Meu Bem”, porque é emblemática desse caso. Melhor fora “meus bens”… Beatriz é a artista mais cara do Brasil, tendo uma obra arrematada em leilão por 2 milhões de reais. Um preço cujo ridículo faz jus a uma obra ridícula.

Mas a pintura em tela não era utrapassada? Ou dizer “ultrapassado” virou ultrapassado? A pintura de cavalete não fora superada e desmascarada bombasticamente pela arte conceitual? Críticos, por favor, sejam claros! Ou vão dizer que é mentira? O fato é que quem de fato foi passado pra trás fora o público; ao menos aquele que caiu na trapaça do disse-que-disse. Gullar afirma que a vergonha dos críticos aos negarem os impressionistas botou a crítica em tal estado de alerta, que se viu obrigada a aceitar tudo o que lhe metiam debaixo do nariz; daí aceitarem sorrindo o modernismo. O mesmo se repete com os críticos em relação aos pós-modernistas, e agora (quem diria?!) a alguns pintores.

Parece que para não assumir o papel de amplificador de preconceitos, o Sistema das Artes acata a diversidade: ergue uma pintora nos ombros e aos píncaros da especulação. E não adianta dizer que quem especula é o mercado… Tenho guardada uma antiga entrevista onde uma das donas da Fortes Vilaça (representante de Beatriz Milhazes no Brasil e uma das maiores galerias do país) declarava que a cotação no mercado internacional de um artista aumenta em 10% a cada Bienal de SP em que participa. Eis a pedra filosofal que transforma lixo em arte, e arte em dinheiro. Beatriz já participou de várias Bienais, além de Cuenca, Xangai, Veneza e Sydney – todas recentemente.

Em questão de aparelhos ideológicos como os museus, não se pode inscrever a legenda “a direção não se compromete com a opinião dos autores”.

O que o museu expõe é aquilo em que acredita, com sua fé cega nas cátedras da Academia. Ele não é um palco onde se encenam peças boas e ruins: é um estandarte que afirma este ou aquele estilo. Ele não relativiza ideias; ele as entroniza (no dizer dos doutores, as “entifica”). Quem não deve se apegar a valores, e por isso abriga aleatoriamente a mais plural diversidade, é o mercado – que circula randomicamente como o capital (embora sempre nas mesmas mãos).

Há anos temos falado de um retorno da pintura, de ordem global; o que enfim parece se manifestar no cenário nacional, ainda um pouco atordoado da ressaca, talvez ruborizado pelo superaquecimento do mercado de arte contemporânea. Ou não: vergonha é algo que o mercado não tem mesmo, nem a arte contemporânea. Três indícios de que o gigante também acordou para a realidade artística do mundo: uma pintura hiper-realista de Rafael Carneiro no meio de uma exposição dedicada à video art; a atual exposição de Art Pop com obras de Gottfried Helnwein no CCBB, e a exposição do escultor hiper-realista Ron Muek marcada para Março; tudo em São Paulo. Apenas duas razões justificam estas exposições: o clamor do público, que não aguenta mais o narcisismo high-profile da arte contemporânea; e os índices de audiência, que sem dúvida seduzem curadores (a enorme pintura de Helnwein atraiu já no lançamento tamanha atenção do público, que a Instagram lançou uma campanha publicitária solicitando fotos de expectadores em frente à obra, que depois serão selecionadas e postadas no site da empresa). Há anos os museus brasileiros têm questionado de todas as formas a pintura tradicional, de modo a retirar seu estatuto e legitimidade… E agora: Beatriz Milhazes!

A carreira meteórica da artista (sucesso que não se revelou em sua estética); o gosto que a burguesia tomou em ver suas telas no hall de entrada de suas casas; a conciliação em agradar público “e” crítica – coisas normalmente dicotômicas, e a de não incomodar absolutamente ninguém (a não ser a mim, aparentemente)… tudo isso levanta uma grande e profunda questão: se Beatriz entra no MON, por que Romero Britto não?

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4 pensamentos em “9. “Os milhares e os bens” de Beatriz Milhazes

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