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I

O silêncio diante do absurdo é tão absurdo quanto a tagarelice diante do sublime. Esta é uma possível definição para redes sociais: o sublime ocultado por comentários inúteis a fim de que o absurdo passe despercebido… Algo me embrulha as vísceras, salvo exagero na metáfora, como o cutelo da morte: a consciência de que marchamos para o caos na mão da burguesia mais burra e boçal, incivilizada, bárbara, inumana, bestial, rude, pedante e obtusa – de braços dados com  a juventude.

O autor do comentário não tem idade suficiente para apresentar-se como homem atuante em uma sociedade, ombreando entre homens; não terá o costume de ler jornais, então informo que não é você, nem seus amigos que pagam a faculdade onde cursará o filho da cozinheira; ao contrário, vocês gastam, desperdiçam, entulham – travam o movimento da História. Os impostos no Brasil pesam mais sobre os que têm menor renda. Os 10% mais pobres pagam 44,5% mais do que os 10% mais ricos, de acordo com pesquisa elaborada pelo Ipea.  A matéria, da Folha de SP, está aí: http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u402037.shtml

Na época, o Ipea era dirigido por Marcio Porchmann, coincidentemente autor da tese de que as mudanças sociais da era Lula não resultaram na criação de uma nova classe média: os empregos criaram uma classe trabalhadora consumista, individualista e despolitizada, segundo publicou recentemente em livro. Isso fora dito por um economista conservador.

Ante meus olhos (que são dois para que um não desminta o outro), o gérmen da podridão manifesta-se no seio da própria juventude; ascende-se um reacionarismo jovem que eu soubera apenas em períodos pré-ditatoriais – e não me refiro a “ditaduras comunistas”. Irresponsavelmente arriscarei uma síntese conjuntural de 25 anos em 2 linhas: a queda no Muro de Berlim, enquanto símbolo conotativo da derrota das ideologias no leste, inaugurou uma era virtual, tanto tecnológica, quanto idealmente. O capitalismo instaurou-se como “alternativa às ideologias”. Teve a oportunidade histórica de se assumir não como circunstância contingencial, mas como imanência: a natureza humana enfim livre de amarras e em seu pleno curso. Em 25 anos houvera tempo para desmobilização não só de uma classe, mas da própria noção de classe; dentro delas uma geração foi alienada do processo histórico, apartada da razão e da historicidade, da substância de sua própria existência. Afinal, para ela o mundo começou em 1989.

Essa geração, que não viveu a Ditadura Militar, reedita a ARENA na figura de uma facínora insana de 22 anos; essa geração que não viveu a DM defende a DM julgando as coisas, efetivamente, através da lógica racionalista de nossa época histórica, acreditando que “as coisas eram melhores naquela época”… época que não conheceram. (Woody Allen em seu filme “Meia Noite em Paris” explica perfeitamente esse fenômeno: buscamos um “passado melhor” por estarmos permanentemente insatisfeitos com o presente, e afinal conosco mesmo.)

Entretanto, a geração que não viveu a DM tem uma clareza histórica perfeita e a absoluta consciência dos fatos, uma vez que seu método de pensamento não incorpora contradições – tal como no cientificismo do século XVII. Sem surpresa para a História, repete o comportamento dos catedráticos medievais que ao constatarem incongruências entre os corpos dissecados e o Tratado de Galeno que tinham em mãos, mandavam executar o mestre barbeiro que operava a dissecação. É esta a explicação do comentário, que utilizo aqui como emblema sintomático do que deve ser posto em discussão em todas as casas, escolas, praças, bares, livros, peças, discos, produções artísticas, conversas de elevador – antes que ecloda na rua na forma guerra civil: não o nojo que a estúpida elite brasileira tem aos trabalhadores, mas o ódio da juventude classe média à pobreza disfarçado de “patriotismo” e de “luta contra-ideológica”.

II

Diego de Velázquez, | "Las Meninas", óleo sobre tela (1656)

Diego de Velázquez, | “Las Meninas”, óleo sobre tela (1656)

É uma questão sociológica e também psicanalítica. A violência do ódio é o sintoma extremo do sofrimento, que é o diagnóstico do medo. O medo é ao mesmo tempo Medusa e Hidra de 7 cabeças: se transmite e paralisa o outro pela irracionalidade; ou pode ser a armadura do orgulho que se ressente ante as ofensivas do inimigo em potencial – inimigo que é o grande Outro chamado ‘a sociedade’.

Evidente que o comunismo não tem a ver com pobreza – essa é uma associação per‘versa’ (construída sobre uma falsa “versão”). A associação correta é: o capitalismo tem a ver com pobreza – inclusive sua possível e rara ascensão de classe; comunismo ou socialismo (no fundo a mesmíssima coisa) têm a ver com riqueza, distribuição e abundância.

(Antes que na cabeça de algum demente apareça a imagem de Stalin, Kim Jon-um, Fidel Castro, Hugo Chaves, MST, Belzebu, os gulags e as outras cinco ou seis imagens e frases feitas que compõem todo seu repertório sobre o assunto, falemos um pouco de matemática básica: Stalin = stalinismo ≠ comunismo; Fidel Castro = castrismo ≠ comunismo, e assim por diante. O comunismo que qualquer pessoa defenda hoje é um comunismo que se há de implantar em dado momento histórico, não o comunismo específico da Rússia de 1917, nem o sistema de Cuba, nem o de lugar nenhum do passado ou do presente de qualquer outro país; não há comparação possível – isso por conta de uma teoria bem conhecida da Física e da Filosofia: a história não volta atrás, nem um fenômeno acontece duas vezes. Como 99% dos argumentos contra o comunismo vão neste sentido, achei melhor desde já refutá-los).

Retomemos. Evidente que não é “comunismo” o fato do filho da cozinheira da USP passar no Vestibular, como o sociopata comenta – é precisamente o capitalismo que separa as classes, EVENTUALMENTE PERMITINDO COMO EXCEÇÃO À REGRA, que um indivíduo com muito esforço altere o próprio destino rompendo sua condição histórica de classe. A raiva e a ignorância subjacentes em um comentário articulado, sem erros de sintaxe, não dizem que as classes médias e altas não estão sendo educadas: outrossim, expressam que elas estão sendo educadas para a barbárie. Para além da restrita consciência do comentarista, o que o comentário manifesta subliminarmente é assustador: reflete a opinião que ecoa na cabeça de milhares de jovens da classe média e média alta, zunindo como um mantra amplificado e reverberado na mídia, na televisão, nas revistas, nas redes sociais, de que a desigualdade é um princípio ético – e não o contrário.

Se o energúmeno não sabe que o papaizinho sonega impostos como todo bom burguês, e que quem paga os impostos no Brasil é justamente as classes oprimidas que constroem a riqueza de quem sonega, isso é apenas um dado. O princípio venal da coisa é que seu pensamento segue a parca lógica: “se o pobre passa na Universidade que eu e minha classe estamos pagando, um dia não haverá espaço para meus iguais, os príncipes herdeiros, pois teremos que disputar, e o que é pior, dividir o espaço com a ralé, com negros, pobres, gente mal vestida, trabalhadores sujos”. Os princípios estão todos invertidos. A ordem dos elementos é a seguinte: a Universidade é pública, financiada pelo povo e para o povo a fim de minimizar as discrepâncias sociais, e vocacionada àqueles que não têm condições de pagar um curso superior, pois entende-se que um ser racional tem direito ao desenvolvimento intelectual ainda que não tenha recursos de ordem material para isso – do resultaria, em princípio, uma sociedade mais igualitária onde, inexistindo contrastes sociais brutais, deixaria de haver índices brutais de violência; e só então talentos reais (e a falta deles) poderiam enfim revelar-se por seu valor intrínseco.

A violência, porém, inicia no discurso e na prática do opressor; nesse caso, especialmente inconformado por se tratar de uma ascensão intelectual – coisa de que as classes médias e altas estão abundantemente carentes. A primeira coisa que precisam descobrir é a que classe pertencem.  99% dos comentários e atitudes de defesa ao capitalismo que eu leio e presencio não vêm de burgueses, mas da classe média – escravos maníacos da burguesia. Eu mastigo meu chapéu se o sujeito que fez o comentário não é um destes. O burguês não é quem se beneficia do sistema, mas aquele que o “institui”, seu poderes sobre este são quase irrestritos. É fácil reconhecê-lo: lembram no filme “12 Homens e um Segredo” onde havia um ladrão que era o único com quem ninguém se identificava? Ele era, assim como os outros 12, bonito, elegante e esperto, mas a “ideologia” Hollywoodiana fez com que o expectador não simpatizasse com ele: era quem havia passado a perna no grupo de Ocean, o ladrão ‘de fora’, que disputava com o bando. Pois é, aquele é o burguês típico. Morava num palacete, colecionava quadros que valiam milhões de dólares por hobby (milhões de dólares por hobby!), conhecia arte de fato (não era um poser…), era instruído, viajava pela Europa, sabia inclusive capoeira, representando o yuppie pós-moderno, adido à globalização e a par de regionalismos exóticos. De onde vem o seu dinheiro? Herança, especulações na bolsa, ações em inúmeras empresas, lobby, participação em mega-incorporadoras, tráfico de influência, sociedade em multinacionais.

Um burguês não vai para o Costão do Santinho nas férias, nem paga a viagem para Europa no cartão. Burguês não tem férias. Ele tem Trabalho porque sua vida são férias eternas e, assim como o Duque De Anjou, todos os outros são seus criados. Nós por vezes achamos que temos um trabalho – o que temos é apenas um emprego, somos empregados de alguém, que é empregado de alguém, que por sua vez é empregado de um burguês. O homem livre é aquele que pode escolher quais obstáculos põe diante de si. Esta a diferença entre ele e o escravo. Aquele que não encontra obstáculo – o playboy, o filhinho de papai, o almofadinha, ainda não esbarrou nos limites do meio social: seus horizontes não são amplos o suficiente para fazê-lo homem. Se você não vê semelhanças entre a sua vida e aquela do burguês, então o sistema capitalista não foi feito para você – você é, como eu, um escravo dele, vivendo de migalhas, e talvez tenham convencido você, para conveniência deles, de que o capitalismo é ótimo porque… Ora, não possuíamos obras, mas afinal, podemos vê-las nos museus gratuitamente aos domingos (embora não entendamos patavina de arte)! Não temos palacete, mas temos casa própria ou pagamos o aluguel em dia (embora cada vez mais caro)! Não temos participação nos lucros da empresa, mas dormimos tranquilos à noite, sem peso na consciência (à base de Diazepam)… É ipsis litteris a definição de “moral do escravo” – tal como a definia F. Nietzsche.

Ressuscitar o ARENA, ser um jovem assumidamente da direita reacionária, atacar o minúsculo (e absolutamente meritório) sucesso do filho da cozinheira contra todas as barreiras inelutáveis da ordem burguesa, etc. são a meu ver anomalias, perversões sociopatas, sintoma de que tudo está podre já desde a raiz e que a podridão tem um mais cruel destino: o nada.

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