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 (projeção do lançamento do futuro empreendimento "Arts" do Grupo Thá na Rua Riachuelo)


(projeção do lançamento do futuro empreendimento “Arts” do Grupo Thá na Rua Riachuelo)

Todos os dias eu passo pelas ruas Riachuelo e São Francisco “revitalizadas” e vejo como elas mudaram: morreram. Hoje, contei o quinto imóvel posto para alugar na região, incluindo o antigo atelier de Ricardo Todd. Quem não conhece, não conhecerá mais. Ricardo Todd é autor do “Cavalo Babão” do Largo da Ordem. Sua antiga oficina de trabalho é um imóvel enorme no meio da rua São Francisco. Ricardo e sua família faleceram num trágico acidente de automóvel; preso há anos num inventário e sem razão estética, nem histórica para tombamento, o jeito foi alugar. Cito-o porque certamente retirarão a placa em bronze fundido onde se lê: “Ricardo Todd” e aquilo se perderá um dia, como toda memória da São Francisco, já em desagregação.

Claro que a sina do passado é tornar-se futuro e a do presente transformar-se. Os critérios do que fica e do que vai, porém, não estão sendo escolhidos por nós, mas pelo Capital. A novidade é que os artistas curitibanos estão sendo cúmplices deste processo. Sugeri isso em 2009, num pequeno estudo que realizei sobre o “Corredor Cultural”. Em síntese, falava das alterações no Centro Histórico de Curitiba, então no início de sua implantação, e de sua consonância com o processo global de gentrificação. Naquele estudo aventei algumas hipóteses, supondo que poderiam acontecer em longo prazo:

a) a pressão da iniciativa privada junto ao Estado para obras de infraestrutura;

b) a evasão progressiva dos brechós e do mercado de usados da Riachuelo (dado o aumento do IPTU e dos aluguéis resultante dos investimentos públicos na região);

c) a descaracterização original do arquipélago simbólico do Centro Histórico (cujo eixo é formado por estas ruas);

d) a construção de estabelecimentos de médio e alto padrão.

Hoje vejo com espanto que aquele estudo estava equivocado em sua prospecção de longo prazo: todas estas etapas acontecerem em curtíssimo prazo e estão em pleno curso, ponto por ponto… Tudo conforme o plano, dentro dos limites das perspectivas do setor imobiliário, aliás sempre previsíveis. Muitos artistas pensam que estão “trabalhando questões da urbanidade”, pensando a “cidade” e “intervenções públicas” em seus trabalhos… enganam-se! Quem está pensando a cidade contemporânea são as construtoras e incorporadoras. O que surpreende é que, mesmo prevista no pacote, é a arte o carro chefe que sinaliza a saúde do processo de gentrificação do Centro Histórico aos investidores. Só os adesistas fingiram não entender. A arte é a aparência, a representação pública destes empreendimentos, e (ao menos eles) sabem disto; afinal – quem é contra a Arte?

Não é de fato novidade a arte andar de braços dados com a elite do poder. Talvez os artistas que aderiram à “revitalização” do centro histórico achem que o pequeno capital pode conviver com o grande: pois não pode! A questão principal é: por que razão se prestam a fazer essa mediação? (Evoco a imagem de inimigos de classe dando-se as mãos, onde o aperto do mais forte quebra os dedos do mais fraco).

O fakeGalpão Thá Cultural, recém-inventado na Rua Riachuelo é um exemplo prototípico mais que perfeito de gentrificação urbana. Método idêntico ao que está sendo utilizado pelo também fake “East Batel”, suposta região “de interesse” ao longo da Pç. Rui Barbosa, cujo foco é a Nunes Machado. Curioso, fui até lá pra ver. O “East Batel” tem uma revista própria, (nem existe e já possui canal de veiculação – penso tristemente nos grandes escritores de Curitiba batendo de porta em porta, sem espaço para publicar seus livros…). Lá cheguei esperando encontrar as maravilhas que li na revista. Fiquei perplexo: não existe nada. Absolutamente nada! Assim o mercado imobiliário tem funcionado: não basta erguer um prédio, tampouco criar uma marca (tipo “Batel Soho”): é necessário inventar uma região “distinta” do bairro, “separada”, “exclusiva” no entorno da obra a fim de especular o valor do solo e atrair investimentos. Claro que esse bairro é como um Jardim das Delícias de H. Bosch…

O Galpão Thá Cultural é na realidade um antigo estacionamento, provisoriamente ocupado por intervenções artísticas, que em breve será derrubado para abrigar um megaempreendimento comercial. Na entrada principal: um plantão de vendas moderno, com projeto arrojado e porcelanato no chão. Através de mulheres sorridentes de tailleur e homens de gravata e paletó, chegamos a um pavilhão sem qualquer beneficiamento, a não ser aqueles criados por artistas curitibanos: fotos, pinturas, instalações, grafite, stencil…  A Thá não precisou se preocupar com nada, cedeu o estacionamento que está caindo aos pedaços e logo será destruído para que artistas polvilhem de glamour o empreendimento, atraiam o interesse de yuppies sofisticados e excêntricos, e tornem a região culturalmente interessante: aprenderam bem com a gentrificação do Soho em Londres e em Nova York.

Porém, se o artista acender um joint, fodeu: a rua tem agora segurança. Ali não é lugar de maconheiro – circulam famílias por aquelas ruas, com suas crianças e seus cães de raça. Se o artista grafitar uma parede, sujou: a prefeitura firmou um acordo (estranhíssimo, aliás) com a Tintas Coral, que está pintando tudo. Pintariam as pirâmides se pudessem, porque a burguesia e a classe media conservadora não gostam de coisa velha, coisa descascada, antiga, a menos que algum crítico ou avalista afirme tratar-se de obra exótica e de importância estética –  suficiente para se especular e vender; ou que, aliado ao estilo clean, “combine rústico e moderno” e fique super fashion; ou ainda que o brega seja manipulado de modo a virar kitsch (que ainda está na moda) e daí a cult. Se isso fosse true, como eles dizem, a casa de minha avó em Lages seria um museu, verdadeira pérola da estética pós-moderna porque, pertencente a uma católica de verdade, tem suas paredes repletas de quadros de santos e imaginárias combinadas a toalhas e jarras de plástico colorido – coisas que, num lugar descolado, são arte kitsch; na casa de minha avó são bregas mesmo…

O artista ou aspirante a isso que ainda não se deu conta do que está acontecendo na Riachuelo e na São Francisco, ou é adesista ingênuo, ou capitula cinicamente à oficialidade (e olhe que quem anda fazendo isso é o povo do wild side, que jura pertencer ao meio underground). O capitalismo não é conservador, é altamente revolucionário – derruba hoje o prédio construído ontem ou construído há séculos, não importa; vira e arranca as páginas da História que julgar conveniente; extingue espécies, fauna e flora, se necessário; arregimenta crianças a trabalhos forçados, se for preciso. Conservadora é a esquerda, que quer manter os “bons costumes” – coisas que o capital não pode comprar (pelo contrário, tem que destruir para sobreviver): a solidariedade, o afeto, a memória histórica, o lastro simbólico.

A cidade não é apenas um lugar ontológico. Muito menos uma “máquina de morar” como convencionado na Carta de Atenas. A cidade é, antes de tudo, uma arena de contradições, onde cada centímetro tem de ser conquistado. É uma composição de teias sobrepostas, espaços “separados”, “distintos”, “exclusivos” – portanto em disputa. Pois dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, simultaneamente: onde um está, o outro fica de fora. Porém nossa liberdade começa onde começa a liberdade do outro…

O atual centro histórico de Curitiba é a bola da vez que está em jogo. Sem saber, os artistas estão dando cabo da memória cultural e do manancial artístico que o centro carrega, por um lado, e por outro legitimando a atitude policialesca, autoritária e elitista da prefeitura de “combater a criminalidade” da região. Ora, o processo de gentrificação (antes chamado de “higienização social”) situa-se justamente no fato de que certas regiões tornam-se alvo de investimentos porque possuem ressonância cultural a eles associada. Normalmente lugares degradados, que por seu valor cultural e simbólico, sua espontaneidade e, claro, o baixo custo dos aluguéis atraem artistas ligados ao mundo alternativo. Evidentemente a droga e a criminalidade vêm a reboque – afinal, sejamos francos, os artistas estão onde a drogas estão. Ora, esses investimentos de alto padrão (como os empreendimentos Thá) e o consequente policiamento de que foram causa, retirou e está retirando daquelas ruas sua comunidade local – sim, prostitutas, nóias, traficantes, junto de pequenos comerciantes, vendedores ambulantes e o mercadinho bem conhecido da população artística que desde há muito tem fornecido a mobília de suas casas e estúdios… Essas pessoas desaparecem do local (e para aonde vão?) – os mais vulneráveis, expulsos abaixo de porrada pela polícia como eu mesmo já presenciei mais de uma vez; os pequenos comerciantes, prestadores de serviço e trabalhadores informais porque os aluguéis sobem com os investimentos públicos de infraestrutura e devido à pressão que sofrem do grande capital, com o qual não podem concorrer porque esse força a alteração do tipo de pessoa que ali circula e consome.

No folder publicitário do Galpão Thá Cultural há um cartão de corretor imobiliário grampeado: não poderiam ser mais diretos! Na medida em que a “arte” vem aí como um símbolo de prestígio que qualifica e instila diretamente (sem mediação) valor ao mercado imobiliário, dá-se uma inversão diametral de conceitos: a logomarca da construtora passa a ser o símbolo, e a “arte” (despotencializada) apenas um signo, uma palavra que significa prestígio, glamour, poder – e não mais um campo de expansão da atividade espiritual, um território em que se adensa a experiência humana. Em termos mais objetivos, aquele cartão de corretor grampeado no folder diz: à arte estão anexados nossos interesses de especulação imobiliária. Ali ela não funciona como mediação, estratégia que comunica o simbólico, porém apenas como intermediário entre o especulador e o Capital, entre o valor real do solo e o rent gap. Fala do mundo real, concreto, e não mais pode se dissociar dele: a “arte” ali se realiza como sua própria negação afirmando o mundo do Capital, mantendo-se orgânica (e organismo) do sistema.

O termo correto ao processo em curso deveria ser “mortificação” do Centro Histórico de Curitiba. Aquele comerciozinho brega de brechós e móveis usados, os botecos e puteiros, aquele povo que circula ali, os turcos, a vida pulsante e real das imediações vai aos poucos (senão de cambulhada) sendo extinta. Comparem a rua e seu movimento hoje em relação há seis anos e façam um paralelo com o aumento dos aluguéis no entorno…

A. Hauser, analisando o mecenato artístico do século XIV, explica (um anacronismo que não impressiona), o que acontece agora, tanto em relação à conduta da municipalidade, quanto à dos artistas. É um trecho um pouco longo, mas o transcrevo pela rara lucidez, e por julgar ainda válido para o atual contexto:

“(…) [a nobreza] Adulando a vaidade do povo da cidade e presenteando-o com obras de arte que os beneficiados vulgarmente tinham mais tarde de pagar, faziam a melhor propaganda para eles e para o seu governo”. (p. 396)

 “O conflito latente entre a classe intelectual e a classe economicamente superior, em parte alguma se desenrola tão abertamente como aqui, principalmente por parte dos artistas que, em virtude da sua consciência social menos evoluída, reagem mais lentamente do que os seus mestres humanistas. Mas o problema, mesmo que se mantenha não admitido e expresso, está presente durante todo o tempo e em todos os locais, e toda a inteligentsia, tanto literária, como artística, está ameaçada pelo perigo de se converter numa classe de boêmios desenraizada, ‘não burguesa’ e invejosa, ou uma classe de acadêmicos conservadores, passivos e bajuladores. Os humanistas, encerrados na sua torre de marfim, escapam a esta alternativa, mas sucumbem a ambos os perigos que tinham tentado evitar. São seguidos nisto por todo o movimento estético moderno, que tal como eles torna-se desenraizado e passivo ao mesmo tempo, servindo os interesses do conservantismo sem ser capaz de adaptar-se à ordem que o sustenta. O humanista compreende por independência a falta de ligações. O seu desinteresse social é, na verdade, um alheamento perante a sociedade e a sua fuga do presente é irresponsabilidade. Abstém-se de toda a atividade política, a fim de não criar ligações, mas a sua passividade constitui, na realidade, apoio àqueles que detêm o poder. Esta, e não a politização do espírito pelo qual foi censurado nos nossos dias, é que constitui a verdadeira trahison des clercs, a traição dos valores intelectuais pela inteligentsia. O humanista perde o contato com a realidade, torna-se um romântico que chama ao seu alheamento do mundo – abstenção; à sua indiferença social – liberdade intelectual; à sua maneira boêmia de pensar – soberania moral. “O significado da vida, para ele, é escrever em estilo de prosa seleta, compor estâncias estranhas, traduzir do grego e do latim (…). O que aparece como essencial ao seu espírito não é os gauleses terem sido conquistados, mas os comentários que foram escritos sobre essa conquista (…) a beleza do feito cede o lugar à beleza do estilo (…).”* (ARNOLD HAUSER, História Social da Literatura e da Arte, tomo I, ed. Mestre Jou, 1982, p. 450)

*PH. MONNIER, Le Quattrocento, 1901, p. 229.

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6 pensamentos em “5.

  1. Bom mesmo eram os craquentos espalhados aos montes por ali, transformando as ruas em um verdadeiro filme de zumbis… Faça-me o favor… quanta bobagem…

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    • Concordo! Tenho dúvidas com relação a esse quadro lindo e utópico pintado da vida real. O “comerciozinho” de móveis usados há tempos pratica preços de “comerciozão” (independente das razões). Vá vender 1 kg de roupa nos brechós dali pra vender quanto te pagam, e o preço da mesma roupa revendida posteriormente no mesmo brechó. O mesmo vale para os móveis usados nas românticas lojinhas…
      Já presenciei, assim como o autor do texto, diversas situações de vida pulsante (e que está morrendo, como diz), mas nada original e lúdico, e sim gente “dando um raio” em plena luz do dia, 15h da tarde dentro de um carro, no meio da Riachuelo, enquanto ônibus, trabalhadores e pessoas ‘normais’ – no sentido de não-viciados – seguiam com sua também ‘vida real’.

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  2. Este é o preço do progresso na sociedade americana meu caro! Teorias a parte, a prática mostra que o Glamour e romantismo de outras épocas já tinha deixado a região antes mesmo da Thá aparecer por lá. Garanto que os comerciantes de bem ( Sim. Porque a Máfia chinesa dona de todos os bares e bocas da região realmente não deve estar feliz com o progresso por lá) estão torcendo para que outros empreendimentos como este surjam na região. Porque são as pessoas atraídas por estes empreendimentos e que irão morar lá, que movimentarão o comércio, que encorajarão outras pessoas e comerciantes a visitarem ou se instalarem na região e o principal, que ajudarão estes comerciantes a continuarem alimentando suas famílias. Os craqueiros, bandidos, prostitutas, bêbados e arruaceiros não fazem isso por ele! Pelo contrário.

    A região valorizou? Está mais caro? Mas o ponto comercial e o imóvel também se valoriza. O público se qualifica. O número de pessoas que circula na região aumenta. E todos no final saem ganhando. Claro! Menos o traficante, a Máfia Chinesa e os bandidos, drogados ou não, que freqüentam a região!

    Para finalizar, penso que, se existe culpa, é dos próprios governantes que recebem nossos impostos, não fazem sua parte e transferem a responsabilidade deles pra iniciativa privada. A iniciativa privada, por mais que tenha seus valores, sobrevive da exploração do capitalismo ( Que também não foi invenção da Thá). Portanto, apontemos os canhões aos governantes, que nunca deram valor a cultura do lugar e nunca fizeram nada pra torná-lo mais seguro e freqüentável. A Thá ( que não precisava ter feito nada que fez), na pior das hipóteses, mostrou respeitar a cultura da região e, com o Galpão Thá, resgatou um pouco da memória do lugar que estava diluída no álcool, na pólvora e na fumaça de alguns cachimbos de crack.

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    • Concordo! Tenho dúvidas com relação a esse quadro lindo e utópico pintado da vida real. O “comerciozinho” de móveis usados há tempos pratica preços de “comerciozão” (independente das razões). Vá vender 1 kg de roupa nos brechós dali pra vender quanto te pagam, e o preço da mesma roupa revendida posteriormente no mesmo brechó. O mesmo vale para os móveis usados nas românticas lojinhas…
      Já presenciei, assim como o autor do texto, diversas situações de vida pulsante (e que está morrendo, como diz), mas nada original e lúdico, e sim gente “dando um raio” em plena luz do dia, 15h da tarde dentro de um carro, no meio da Riachuelo, enquanto ônibus, trabalhadores e pessoas ‘normais’ – no sentido de não-viciados – seguiam com sua também ‘vida real’.

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  3. Desmistificando teu texto:

    * A casa de Ricardo Todd foi seguidas vezes saqueada durante os anos em que esteve abandonada. Pelas mesmas pessoas que tu acha romântico viverem naquela região. Isso também acontece com diversas outras construções em processos familiares, inventários e outras disputas legais em todo o histórico bairro São Francisco.
    * A criminalidade local invade e ocupa os espaços que ninguém está ocupando. Como mencionado em teu texto, dois corpos não ocupam o mesmo lugar. E onde há pouco interesse dos artistas, ganha quem passa mais tempo nas ruas e conhece cada centímetro das ruas e edificações.
    * As construções da região disponíveis atualmente para aluguel ou venda em diversas imobiliárias, são de propriedade dos árabes (turcos) mencionados no teu texto, e também dos chineses, italianos, polacos, alemães e todas as outras raças que colonizaram e ainda colonizam o país. A maioria deles se ocupa em destruir os telhados e coberturas dos imóveis antigos, para que depois de completamente abandonados possam ser vendidos à construtoras e substituídos por construções contemporâneas. Todo um processo onde a prefeitura é cúmplice, pois não toma medidas necessárias para prevenir a situação e também para incentivar a preservação da arquitetura histórica. Preservar a fachada?!
    * Se o mercado de roupas usadas e de móveis usados (pois não se podem chamar brechós e antiquários) estão se evadindo é por conta simplesmente de disporem, na maior parte, de objetos ruins e de extremo mal gosto a preços altos, isso não favorece em nada as vendas. Escolha alguns estabelecimentos que se destacam na rua Riachuelo, observe os produtos e converse com os donos, isso te dará pistas do sucesso comercial deles.
    * Curitiba não é uma cidade onde se costuma preservar o antigo. As construções novas de todo tipo (inclusive de médio e alto padrão) ocorrem em todos os bairros e encontram no São Francisco oportunidades ótimas devido à desvalorização de construções abandonadas e à criminalidade, à abundância de trabalhadores na construção civil e às facilidades para esta atividade. Além disso, imagine quantos jovens românticos gostariam de viver próximo ao centro, num bairro dito “histórico” e se locomoverem de bicicleta pela cidade, tal qual se faz em toda a Europa (onde o centro das cidades são os lugares mais valorizados e caros). O mercado imobiliário está de olho nisso, te juro!
    * Se os jovens não estão trabalhando a questão da urbanidade como deveriam é porque estão acostumados a fórmulas fáceis do fazer e estão sendo fabricados por empresas-faculdades-fábricas de idiotas acomodados.
    * Quantos realmente são artistas aqueles que “aderiram” e/ou “mediaram” o empreendimento Thábajara? Quantos apenas têm a vontade de ser, mas não têm talento?
    Quem visitou o Galpão e conversou com os participantes, pôde perceber que o que menos interessava era quem cedeu o lugar, mas o que estava acontecendo ali dentro: as atividades dos que freqüentam o bairro, dos estabelecimentos da região, dos artistas, dos interessados, dos que tem em comum o gosto por aquilo que já estão acostumados a saborear no cotidiano do São Francisco.
    O local esteve aberto ao público. As vendas de apartamentos fora um fracasso, mesmo após diversas tentativas exageradas. A efervescência cultural impressionou muitos.
    Se o empreendimento terá validade ou não, o tempo dirá. Mas é certo que quase todos os visitantes não entendeu o vínculo de uma enorme construção contemporânea com as ARTS. Se houve um golpe imobiliário, este sofreu um contra-golpe muito maior dos locais. Todas as atenções se voltaram para o Galpão e não para a Construção imaginária.
    * A marca “Batel Soho” é uma tentativa desbotada de criar algo distinto no meio do nada. E algo fundado no nada só pode ser coisa alguma.
    * A região do São Francisco é culturalmente interessante. Não precisa de revitalização, pois já possui muita vida. Só precisa que essas vidas tenham manutenção para poderem continuar seu legado.
    * A casa da tua vó deve ser muito interessante e brega, não importa onde esteja e o que quer que digam.
    * Toda a música tem sofrido “releituras” eletrônicas ao longo dos últimos anos num processo análogo aos dos empreendimentos imobiliários que tu cita e tão destrutivos quanto, mas ao contrário, disso tu adere sem remorso.
    * “Porém nossa liberdade começa onde começa a liberdade do outro…” tentei entender essa, mas admito humildemente que não consegui.
    * A polícia não está combatendo a criminalidade, as coisas estão como eram há 6 anos.
    Apesar do que tu imaginas, o centro histórico de Curitiba não tem atraído tantos artistas quanto poderia, pois ainda existem muitos lugares desocupados e todo processo mencionado acima acontece livremente, não preciso retornar ao assunto.
    * “…os artistas estão onde a drogas estão” – ah é?
    * A arte contemporânea numa cidade como Curitiba existiria sem o Capital?
    * As pessoas não compraram apartamentos seduzidas pela Arte, mas foram ver arte mediada por um espaço cedido por construtora de grande porte. Os artistas usaram esse meio para fazer aquilo que mais desejam. E usaram esta catapulta para mostrar que ali existe vida pulsante.
    Venceu a iniciativa própria, a força de vontade, o sentido social e o grito por falta de espaço para percorrer caminhos artísticos.

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    • Caro Vinícius, vejo por tua crítica que leste meu texto atentamente, agradeço a contribuição e respondo. Desconsiderando o tom arrivista, percebo reflexão em tuas opiniões e meu interesse fora exatamente contribuir com esse debate, que julgo importante. Infelizmente, desmembras o texto, não abordando seu ponto nevrálgico (o binômio arte|mercado e sua relação com o processo de gentrificação) e te limitas a observações esparsas; a ideia geral se perde… Se defendesses uma concepção seria mais sucinta a resposta. Vou discutindo ponto a ponto, portanto, assim como escreveste. De início colocas como se eu estivesse mistificando a questão, porém que interesse teria nisso se não sou beneficiário em nenhum dos lados? Interesse tem quem ganha ou perde em publicidade artística ou em grana com as vendas! (Coloco isso tudo isso na conta do arrivismo…).

      Dizes que eu acho “romântico” viver naquela região. Enganas-te redondamente; sequer cito essa palavra em meu texto; a palavra é referida na menção a A. Hauser, um historiador marxista que menospreza o comportamento romântico pequeno burguês. Aqui vês no texto o que tu mesmo crias e atacas, portanto, tua própria criação.

      Quanto ao segundo ponto, eu tenho opinião oposta; o que de fato a gentrificação faz, “enquanto tendência (como exposto nas análises sociológicas que cito no estudo mencionado), é se aproveitar de ambientes já degradados que possuem certa ressonância cultural, ligada à boemia, ao mundo alternativo, à cultura histórica e artística (no caso, em especial à arquitetura), etc. O que “eu” considero é que as pessoas ligadas ao narcotráfico ali (inclusive os usuários da classe média) são sintoma de contradições sociais mais amplas e varrendo-as para outro lado não se resolve o problema, mas sim elitiza-se o bairro, o que é perfeitamente visível. Não sou contra combater a criminalidade, o que digo é que o que está em curso é uma forma de “piorar” o problema, uma vez que aumenta o contraste social – isto é a causa real da violência. “Romântico” é pensar que se pode consertar as coisas prendendo e chutando a “ralé”, como se fossem “eles” o problema.

      Achas que, como “ninguém” estava ocupando os espaços, nem os artistas, a criminalidade o ocupou… A criminalidade então é composta por ninguém? As centenas de pessoas que circulam na região são todas criminosas e não são pessoas, são ninguém? Acaso as imobiliárias também não chegam e ocupam o espaço, físico e simbólico? Elas podem; os outros que frequentam há anos a região não podem, não têm direito de frequentar o centro como querem, a exemplo das empreiteiras?

      A propriedade dos imóveis da região não é apenas dos turcos e imigrantes a que chamas de “raça colonizadora”; muitos comerciam ali de aluguel. E se acaso fossem deles, qual o problema? Eles não podem possuir imóveis e vender? A Thá, que destrói e reconstrói como quer, pode; eles, os pequenos comerciantes que degradam pelo uso, não podem? Eles só se ocupam “em destruir os telhados e coberturas dos imóveis antigos, para que depois de completamente abandonados possam ser vendidos à construtoras e substituídos por construções contemporâneas”, como dizes? É desta forma que achas que essas pessoas ocupam seu tempo?

      Afirmas que o “mercado de roupas e móveis usados” está se evadindo “simplesmente por disporem, na maior parte, de objetos ruins e de extremo mal gosto a preços altos”? Desculpe, mas isso é insano… Se estão saindo agora é porque alguma coisa aconteceu, não pela qualidade ou preço dos produtos! Estão saindo (isso concordas) por efeito direto da gentrificação, meu caro! Mas tocas num ponto interessante: o mau gosto… O problema, Vinícius, é que o mau gosto é sempre dos “outros”, já percebeste? Preferes, então brechós e antiquários…? Ok…

      Eu sei perfeitamente no que o mercado imobiliário está de olho… por isso escrevi aquele texto. Se Curitiba não costuma preservar o antigo, então esse é o problema: um problema sério! Escrevi exatamente sobre isso – as “ótimas oportunidades” no São Francisco (ótimas, diga-se de passagem, para a classe média que pode comprar…) são causadas porque os setores históricos estão abandonados às mãos das empreiteiras e incorporadoras – como a Thá, por exemplo, com subvenção da municipalidade!

      Quanto às “empresas-faculdades-fábricas de idiotas acomodados”, concordo em parte; porém aí te referes sem dúvida às Faculdades privadas de baixa qualidade: coincidentemente as únicas que classes destituídas podem cursar. Não acho que essas classes sejam acomodadas; as graduações normalmente são noturnas porque os estudantes trabalham durante o dia… Acomodada, me parece, é a classe média, que tem acesso ao conhecimento e não usa da crítica; pelo contrário, defende o grande Capital…

      Se são artistas ou não os envolvidos, não me interessa; acredito que todo ser humano possui talentos que, havendo meios, podem emergir. O que me preocupa é o “pouco interessar quem cedeu o lugar”. Primeiro porque exemplifica um artista desinteressado do meio social no qual está inserido (literalmente dentro!); segundo que precisa que uma empresa ceda o lugar para ele trabalhar. Não julgo o Galpão Thá Cultural como algo nefasto, que deva ser combatido; acho a atitude de organização artística válida, suscita debates, movimenta o campo; meu texto apenas faz exatamente isso: provocações para debatermos o papel da arte e sua relação com a organização econômica da sociedade! Acredito que no Galpão ocorreram ótimas discussões, sem dúvida!

      Não me consta que as vendas do Grupo Thá tenham sido um fracasso. Pelo contrário! Agora, achas realmente que os artistas organizados no Galpão Thá Cultural são responsáveis por frustrar os interesses de especulação da Thá? Se assim é, admites então que a “arte” ali foi um golpe de marketing, usada como instrumento pela imobiliária. Pois isso eu acho grave. Jamais submeteria meu trabalho artístico a algo do gênero; minha produção vai no sentido oposto, o que não poderia acontecer com aquela sediada naquele local. Ademais, o criador do Galpão escreveu-me e seu discurso no post não demonstrava qualquer animosidade, conflito ou relação negativa com os empreendimentos imobiliários.

      “A marca “Batel Soho” é uma tentativa desbotada de criar algo distinto no meio do nada. E algo fundado no nada só pode ser coisa alguma.” Essa tua frase, peço desculpas, mas não compreendi. Caso não tenhas entendido, citei o “Batel Soho” como um exemplo congênere de tentativa de criação figural de uma estrutura ainda inexistente com fins de especulação – é o que no léxico do mercado imobiliário chama-se rent gap, fenômeno análogo à gentrificação da São Francisco.

      E acho aquela região interessante culturalmente sim (muito mais do que um Batel, por exemplo), e não necessita de revitalização; o que precisa ser revitalizado é a periferia, construir ruas, saneamento básico, luz elétrica, coisas assim… Não precisamos de outro Batel (que é exatamente o que querem fazer) para usufruto da pequena burguesia que já usufrui da cidade como quiser… (E, por favor, deixe a casa da minha avó longe de teu sarcasmo; fale da casa da tua avó se quiseres!)

      Citas tal música eletrônica a que supostamente eu adiro “sem remorso” comparando-a à especulação imobiliária… Acho que te referes a outro escrito, não há nada semelhante em meu texto.

      Sim, nossa liberdade começa onde começa a do outro. Esse é um ponto importante a se elucidar. O pensamento liberal moderno acostumou-se a conceber a liberdade como um espaço restrito ao indivíduo e sua subjetividade; espaço esse limitado pelo domínio alheio. É o tal do “cada um no seu quadrado”. Eu penso diversamente, Vinícius. Só posso ser livre, se “convivo” em um espaço de liberdade comum; não delimitada pelo domínio privado do outro. Minha liberdade é, assim exatamente do tamanho da liberdade do próximo; igualmente. Na cidade vemos claramente aquela concepção: se eu sou livre, o sou apenas nos campos (físicos e simbólicos) onde possuo trânsito privado, e aí ninguém bota o pé! De minha parte, sou socialista e reivindico uma concepção onde o espaço possa efetivamente ser público e a liberdade mediada pela coletividade, não pelo domínio privado.

      Vinícius, ao contrário do que imaginas, a polícia está combatendo a criminalidade na região sim, e também (especialmente) no bairro São Francisco. Não vou transigir, é um fato notável (inclusive dois artistas amigos, conhecidos frequentadores da região, foram presos esta semana, libertos sob fiança, porque fumavam um joint na Paula Gomes).

      Perguntas se a arte contemporânea numa cidade como Curitiba existiria sem o Capital: é de fato uma grande questão! Deixemos para outro texto…

      Concluis ao final, invertendo minha proposição (julgas que a arte é que se valeu da mega-construtora e do Grupo Thá e este é quem foi usado), e admitindo, por fim a “falta de espaço” para as Artes… Lembra-me a desculpa do Tom Zé dizendo que ele é quem se utilizou da Coca-Cola quando fez aquele comercial, não o contrário…

      Tudo bem, não concordo, porém aceito tua opinião, se de fato é esta; é teu modo de ver. Faço eco, ademais, com a dita “falta de espaço” para a Arte, esse foi justamente o assunto do meu texto: a arte, já sem espaço, está sendo destituída pelos interesses de especulação capitalista. Afinal, o Galpão será derrubado, um prédio será construído em cima e a cara da São Francisco, uma das ruas mais antigas da cidade, completamente modificada conforme os planos da Thá e a anuência do registro de incorporação dos cartórios. Ou por acaso tu e os artistas participantes do Galpão foram em algum momento convidados a opinar sobre o processo e tiveram voz e voto no conselho deliberativo da construtora?

      (Desculpe qualquer exasperação em minha resposta, francamente… As discussões são assim mesmo).

      GD

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